Estação de Esforço Constante da Herdade da Mitra: 5 anos de monitorização de aves invernantes

Por: Carlos Godinho

Biólogo e Mestre em Biologia da Conservação, encontra-se actualmente a realizar o Doutoramento na Universidade de Évora sobre “A influência das acções de gestão florestal nas comunidades de aves dos montados e pinhais”.

A 15 de Novembro iniciou-se o sexto ano do projecto MAI – Monitorização de Aves Invernantes, no qual a EEC da Herdade da Mitra participa desde o início. Este projecto é da responsabilidade da APAA – Associação Portuguesa de Anilhadores de Aves, e envolve actualmente 8 locais em todo o país (http://apaapt.wixsite.com/apaa/mai). A metodologia deste projecto consiste em anilhar no mesmo local ano após ano, de forma a adquirir séries de dados longas que permitam aferir a tendência das aves invernantes em Portugal, bem como perceber a sua origem geográfica. Entre 15 de Novembro e 15 de Fevereiro são realizadas 6 sessões de anilhagem, uma em cada período de 15 dias.

 

Desde o Inverno de 2011/12 foram processadas 915 aves (730 capturas e 185 controlos – aves capturadas já anilhadas), de 38 espécies. Em média por ano são capturadas 183±48 [DP] aves, tendo sido 2013 o ano com menor número de aves (n=121) e 2014 o ano com mais capturas (n=250) (Fig. 1). Ao longo das seis sessões anuais existe uma grande variabilidade nas capturas (Fig. 2), em média a primeira sessão (entre 15 de Novembro e 1 de Dezembro) é a mais rentável com 45±23 [DP] aves e a quinta sessão (15 a 31 de Janeiro) a menos concorrida 22±5 [DP].

Figura 1 – Número de aves capturadas e recapturadas por ano no projecto MAI na Herdade da Mitra – Universidade de Évora

Figura 2 – Número médio de aves capturadas por sessão para o período 2011-2015 na Herdade da Mitra – Universidade de Évora

Em média por sessão de anilhagem são capturadas 33±17 aves, sendo o record de aves numa sessão de 73! As cinco espécies mais capturadas são a toutinegra-de-barrete Sylvia atricapila (n=243), o chapim-azul Cyanistes caeruleus (n=102), o pardal-doméstico Passer domesticus (n=80), a felosa-comum Phylloscopus collybita (n=78) e o pisco-de-peito-ruivo Erithacus rubecula (n=56), responsáveis por 61% de todas as capturas. Estes dados adquirem maior relevância no contexto nacional, uma vez que três destas espécies são prioritárias para o projecto (toutinegra-de-barrete, felosa-comum e pisco-de-peito-ruivo).

Como curiosidade, nos cinco anos de projecto foram recapturadas duas felosas-comuns oriundas do Reino Unido, que fizeram mais de 1.600 km para virem invernar nos jardins na Herdade da Mitra! Manter um projecto desta natureza só é possível graças ao envolvimento de várias pessoas que voluntariamente dão o seu tempo para manter em funcionamento a Estação de Esforço Constante da Mitra. A todas elas o meu agradecimento.

No Inverno de 2016/2017 esperamos passar as 1.000 aves capturadas, e ter a sorte de recapturar uma ave anilhada algures na Europa!

Algumas aves capturadas nas sessões do projecto MAI. (1) Pintassilgo Carduelis carduelis, (2) Pega-azul Cyanopica cooki, (3) Dom-fafe Pyrrhula pyrrhula, (4) Rabirruivo Phoenicurus ochruros.